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São Luís, MA, Brazil
Professora de Língua Portuguesa da rede pública estadual de ensino, ora lecionando no CE Manuel Beckman e CE Lara Ribas. Professora do Curso de Letras da Faculdade Atenas maranhense(FAMA), onde atua como supervisora de estágio nas licenciaturas em língua inglesa e portuguesa.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

REALISMO

CRONOLOGIA DO REALISMO
Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo (1893) e Pré-Modernismo (1902) - são mais simultâneos que sucessivos, e a Era Realista desdobra-se muito além de seus limites cronológicos estritos, projetando-se no pré-Modernismo (Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato).

Atitude realista da observação direta da vida e de sua recriação artística exata e minuciosa é uma constante universal e sempre existiu na Arte, em oposição à atitude romântica, também universal no tempo e no espaço, marcada pela fantasia. A literatura evoluiu por causa da oscilação incessante entre as atitudes, ora realista, ora romântica, e de sua combinação.
Stendhal, Balzac, Victor Hugo, Charles Dickens, Gogol e outros, normalmente relacionados ao Romantismo, foram quem realmente fundaram o Realismo na ficção contemporânea.
No Brasil isso pode ser notado no meio do Romantismo: José de Alencar (Senhora - crítica social), Bernardo Guimarães (O Seminarista - sexualização do amor), Taunay (Inocência - recriação fiel da paisagem e costumes mato-grossenses), Fraklin Távora (O Cabeleira - violência no sertão do Nordeste) e Manuel Antonio de Almeida (Memórias de um Sargento de Milícias - imparcialidade da caracterização dos costumes e ambiente do Rio colonial).
No Realismo, além do romance (psicológico, social, regional, de tese etc), desenvolveram-se:
1. a oratória civil (Rui Barbosa)
2. os estudos históricos (Joaquim Nabuco, Oliveira Lima)
3. o jornalismo (José do Patrocínio)
4. a crítica literária (Sílvio Romero, José Veríssimo)
5. o ensaismo (Tobias Barreto, Euclides da Cunha)
6. os estudos da Gramática (Júlio Ribeiro e João Ribeiro)

A corrente naturalista é um desdobramento do Realismo, por isso existem muitos pontos em comum entre as duas correntes (Realismo - Naturalismo). Ambas orientam-se no sentido do cientificismo e do materialismo, da objetividade e da crítica às instituições burguesas, ao clero e à monarquia. No Brasil ambas se desenvolvem simultaneamente e coexistem em determinados autores.
No Brasil, esse período foi o primeiro em nossa literatura a apresentar um panorama completo da vida literária, com todos os gêneros florescendo, com as instituições culturais se multiplicando, com os numerosos jornais sendo relativamente lidos. De elemento marginal que era, o escritor foi-se tornando aceito, considerado parte integrante da sociedade.

Características Gerais

Realismo: Romance documental, apoiado na observação e na análise. Acumula documentos, "fotografa" a realidade para dar a impressão de vida real. Arte desinteressada, impassibilidade. Seleciona os temas, tem aspirações estéticas, busca o belo. Reproduz a realidade exterior, bem como a interior, através da análise psicológica. Volta-se para a psicologia, para o indivíduo. retrata a crítica e as classes dominantes, a alta burguesia urbana. É indireto na interpretação; o leitor tira suas próprias conclusões. Grande preocupação com o estilo.

Naturalismo: Romance experimental, que pretende apoiar-se na experimentação científica. Imagina experiências que remetam a conclusões a que não se chegaria apenas pela observação. Arte engajada, de denúncia; preocupações políticas e sociais. Detém-se nos aspectos mais torpes e degradantes. Centra-se nos aspectos exteriores: atos, gestos. ambientes. Prefere a biologia, a patologia, centra-se mais no social. Espelha as camadas inferiores, o proletariado, os marginais. É direto na interpretação; expõe conclusões, cabendo ao leitor aceitá-las ou discuti-las. O estilo é relegado a segundo plano; no primeiro, a denúncia.

TEXTOS ESCOLHIDOS

REALISMO
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Belezas de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
escritas nuns acessos de histerismo

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, complexões exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não me servem esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais;
Almas de santa e corpos de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
Carvalho Júnior NATURALISMO
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até a venda reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço em cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já suas tinas; outras estendiam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. E durante muito tempo fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não vinham as hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço.
O Cortiço - Aluísio Azevedo

Vocabulário:
cloróticas - anêmicas
alfenim - melindrosos
trapejar - estalar
algaraviada - gritada confusante

Destacaram-se
Corrente Realista: Machado de Assis, autor de Quincas Borba, D. Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas
Corrente Naturalista: Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço; O Mulato; Inglês de Sousa, autor de O Missionário; Júlio Ribeiro, autor de A Carne.

REALISMO
(1881-1902)


1-Introdução
Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Era preciso ao contrário dos românticos, mostrar a realidade do cotidiano, o amor adúltero, a falsidade, o egoísmo humano, a impotência do homem diante dos poderosos.
O mundo dos cavaleiros destemidos, de virgens ingênuas e frágeis e o ideal de uma vida primitiva, tudo isso terminou. Na segunda metade do séc.XIX o mundo presencia profundas mudanças. No plano das idéias surgem inúmeras correntes científicas que procuram explicar fenômenos sociais, naturais e psicológicos baseados em teorias materialistas.
É o apogeu da Revolução industrial, da explosão urbana. Surge a eletricidade, o telégrafo sem fio etc.

Positivismo – Doutrina de Comte que abrange várias áreas,da teoria do conhecimento à sociologia. De orientação cientificista, atribui grande importância ao progresso da ciência para que aconteça progresso em qualquer área do conhecimento.

Determinismo – Determinado por Taine, propõe que o comportamento humano seja determinado por forças biológicas(instinto, herança genética) sociológicas, ambientais e históricas.
As circunstâncias externas determinam rigidamente a natureza dos seres vivos, inclusive o homem.

Darwinismo - Continuando o trabalho de Lamarck, Darwin apresenta em a Origem das Espécies, a teoria da seleção natural segundo a qual a natureza seleciona os seres que estão destinados à procriação. Os mais fortes vivem, os fracos são eliminados.

Contexto histórico – Começou a se manifestar na segunda metade do séc.XIX. A aristocracia e o clero deixam, pouco a pouco de interferir na vida política. A classe média, com costumes e aspirações diferentes da aristocracia, passa a ocupar o primeiro plano no cenário histórico.
Num primeiro momento, classe média e operariado estiveram unidos contra a aristocracia. Mais tarde, ocorre a separação entre esses dois segmentos sociais e o proletariado começa a se organizar.
O mundo assiste à vitória do Capitalismo Industrial com seu ideal de que tudo se reduz ao dinheiro. Na economia capitalista, tenta-se anular a interferência humana sobre os empreendimentos financeiros, levando em conta apenas seus próprios interesses e objetivos. As circunstâncias pessoais, individuais têm pouca ou nenhuma importância.
Os assalariados encontram-se em situação difícil, pois trabalham em condições miseráveis e não participam das vantagens do grande progresso industrial da época.
O progresso científico dessa época foi intenso. Aconteceram muitas descobertas científicas como: a utilização do éter na anestesia, a teoria microbiana das doenças, a descoberta do microrgarnismo transmissor da sífilis, malária, tuberculose, etc.
Na análise dos fenômenos da realidade, contava-se, então, com um recurso mais preciso: a ciência. A conseqüência é a derrota do idealismo e vitória do ponto de vista científico na compreensão e análise do mundo.
Darwin publica sua obra Origem das espécies, onde expõe a teoria da evolução das espécies pela seleção natural, questionando, portanto, a existência de Deus. O século XIX é dominado pelo progresso da ciência, da indústria e pelas conquistas sociais.
Há uma grande confiança na capacidade humana de resolver seus problemas aplicando a razão e a inteligência. As concepções filosóficas da época apresentam um caráter materialista. A análise filosófica da realidade deveria partir da observação dos fatos. Essa concepção filosófica adequava-se com muita precisão a uma sociedade que produzia e valorizava, sobretudo, os bens materiais. A principal corrente filosófica do período é o positivismo, que considera apenas o conhecimento baseado em fatos e experiência.
A arte do Realismo procura representar o mundo sem idealismos ou sentimentalismos. Os artistas assumem posição política, a arte passa a ser um meio de denunciar uma ordem social que consideram injusta, tornando-se uma manifestação de protesto em favor dos oprimidos.
Constituindo uma oposição ao idealismo romântico, o Realismo propõe uma representação mais objetiva e fiel da vida humana. A produção literária da época sofre influência do contexto social, histórico e político da época, ora criticando-o, ora refletindo-o. De acordo com a concepção materialista do período, o homem é um ser submetido às mesmas leis que regulam o resto dos elementos do mundo. O artista aceita que o objetivo principal de sua atividade é conhecer e analisar o mundo com exatidão. Por isso, o artista realista assume uma atitude científica diante da realidade que deseja transportar para sua obra. O artista compara-se a um cientista, não expressa mais subjetividade, como fizera no Romantismo. Essa atitude gera as características principais da literatura realista:
• Objetividade – O narrador deve ser imparcial e impessoal diante dos fatos e dos seres incorporados em sua obra.
• Semelhança das personagens com o homem comum – São personagens não-idealizados, esféricos aprsentam simultaneamente várias qualidades, são complexos, multiformes.
• Exaltação sensorial – O romântico apreende o mundo pelo coração, o realista pela razão. É sensorial, precisa ver, apalpar, experimentar fisicamente.
• Condicionamento das personagens ao meio físico e social – Temperamento, raça, clima, ambiente e educação.
• Lei da casualidade – As atitudes das personagens têm uma explicação lógica ou científica.
• Detalhismo – Ao descrever o espaço, o escritor realista detalha fielmente a realidade para aumentar a sensação de veracidade.
• Linguagem simples – Preferência por períodos curtos.
• Preferência pela narração em vez de descrição.


REALISMO

I. A ÉPOCA

Na Segunda metade do século XIX, a concepção espiritualista de mundo, que tinha caracterizado o período romântico, vai cedendo lugar a uma concepção científica e materialista. Tal visão de mundo decorre do enorme valor que se atribuiu à ciência, vista na época como o único instrumento seguro para explicar a realidade e também gerar riquezas. O espírito científico era considerado como critério supremo na compreensão e análise da realidade. A ciência vai determinar as novas maneiras de pensar e viver.
Para ter uma idéia da atmosfera dominante, atente para as palavras do filosofo francês Taine: “Pouco importa que os fatos sejam físicos ou morais; eles sempre têm as suas causas. Tanto causas para a ambição, a coragem, a veracidade, como para a digestão, o movimento muscular e o calor animal. O vício e a virtude são produtos químicos como o açúcar e o vitríolo”.
Em 1859 Darwin publica A origem das espécies. Nessa obra, a evolução das espécies é considerada como resultado do mecanismo de seleção natural. A idéia básica de tal mecanismo é a de que o meio ambiente condiciona todos os seres, deixando sobreviver os mais fortes e eliminando os mais fracos. A natureza de todos os seres, o homem inclusive, seria determinada por circunstâncias externas. O meio ambiente passa a ter enorme importância, pois condiciona matéria e espírito. Essa concepção biológica de vida, chamada dawinismo, seria responsável por grandes mudanças no campo cientifico, repercutindo na economia, na filosofia e na política.
O positivismo, corrente filosófica baseada no método das ciências naturais, traduziu essa visão de mundo, pois concentrava-se nos fatos, rejeitando qualquer explicação metafísica para a atuação do homem no mundo, além de propagar a idéia de que somente o progresso material já seria suficiente para neutralizar os desequilíbrios sócias.
Segundo os positivistas, todos os fenômenos podem ser explicados pela ciência, o que os reduz, portanto, ao aspecto simplesmente material.
A psicologia também apresenta mudanças, subordinando os fenômenos psíquicos aos fisiológicos, estes sim considerados de grande importância, por serem observáveis e analisáveis.
No plano econômico, nota-se acentuado interesse pelo liberalismo da época anterior.
Politicamente, defendem-se idéias republicanas e socialistas. É bom lembrar que o Manifesto do Partido Comunista, data de 1848.
Em resumo: a ciência, que tinha conseguido revelar as leis naturais, extremamente objetivas, suplanta o idealismo do período romântico, formulando uma concepção predominantemente materialista da vida.
No Brasil assinalam-se fatos importantes nesse período:
• A abolição do trafico de negros coloca em disponibilidade grandes capitais, que passam a ser empregados em atividades urbanas, levando as cidades ao crescimento;
• A lavoura cafeeira prospera, possibilitando a expansão de novas áreas de povoamento, assim como o aquecimento das atividades produtora e consumidora;
• Surge o telégrafo;
• Inaugura-se, em 1874, o cabo telégrafo submarino entre Brasil e Europa;
• Aparecem os primeiros jornais publicados regularmente.
A burguesia volta-se para a ciência, enxergando nela respostas e soluções para os problemas do momento histórico que o país vivia. O pensamento europeu, principalmente o positivista, encontra, por isso, grande ressonância entre nós. Por volta de 1870, a Faculdade de Direito de Recife está em plena atividade. A partir dela formam-se grupos que consideram a atividade científica como base para uma renovação do pensamento, utilizando revistas e jornais como veículo de divulgação de suas idéias.

II. O ESTILO

Num sentido amplo, realismo aplica-se a toda obra em que o artista procura representar a realidade de maneira objetiva, quase fotográfica.
Como estilo de época, Realismo designa o conjunto de características que marcam a literatura e as outras artes na Segunda metade do século XIX.
A seguir, alguns dos princípios aceitos pelos realistas e naturalistas, no que diz respeito à criação literária.

1. Posição do artista diante da realidade

O artista procura nivelar sua atitude à do cientista. Daí decorre a objetividade que o escritor procura manter durante a narrativa, não idealizando a realidade, mas limitando-se a registrá-la, o que nem sempre consegue. Por isso, o artista não emite julgamentos a respeito de fatos ou personagens.
O escritor naturalista francês Émile Zola, por exemplo, afirmou, a respeito de duas personagens de um de seus romances: “Limitei-me a fazer em dois corpos vivos aquilo que os cirurgiões fazem em cadáveres”.

2. Posição do artista diante da obra de arte

O romance é encarado como um instrumento de denúncia e combate, uma vez que focaliza os desequilíbrios sócias. É o que se chama de “arte engajada”. Observe no fragmento seguinte como o narrador analisa e denuncia o problema da escravidão e do preconceito racial:

A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do troco e do chicote. Havia muita diferença. (...) ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.
(Adolfo Caminha. Bom-Crioulo)

3. Concepção de homem

Para o romântico, o homem é a medida de todas as coisas. Para o escritor realista/naturalista, o homem é apenas uma peca na engrenagem do mundo, com funções semelhantes ás das demais pecas pertencentes ao reino animal ou vegetal. Decorre daí que, principalmente nos escritores de tendências naturalistas, o narrador enfatiza comportamentos instintivos das personagens e as compara com animais.

Ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos...
(Aluísio Azevedo. O Cortiço)

4. Personagens

As personagens deveriam ser moldadas de acordo com a realidade observada de fora pelo narrador, sem idealizações. Obedecendo a esse princípio, o escritor toma duas direções: retrato do corpo e dos comportamentos exteriores da personagem (tendência naturalista, principalmente) e retrato do espírito e da vidas interior da personagem (predominante na tendência realista).
O comportamento das personagens decorre de causas biológicas e sociais que o determinam. Suas ações nunca são gratuitas.
Nos escritores de tendência naturalistas, é comum aparecem personagens que representam casos patológicos. Não porque o escritor as considere excepcionais, mas porque elas podem funcionar como índice dos males que corrompiam a sociedade.
Para os naturalistas, a personagem está condicionada ao meio ambiente em que vive, nada podendo fazer contra o peso das influências externas, tornando-se vítima da fatalidade das cegas leis naturais. Por isso, é comum que tais personagens se vejam reduzidas a meros joguetes de forcas biológicas ou sociais. Cada uma é um caso a ser analisado com os recursos da ciência, para comprovar uma tese aceita pelo escritor.

Eis um exemplo:

O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a sua esposa, sua congênere, e queira a mulata, porque a mulata era o prazer, a volúpia, era o fruto dourado a acre deste sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.
(Aluísio Azevedo. O Cortiço)

5. Concepção de amor e casamento

Se os românticos geralmente se detinham na análise dos antecedentes do casamento, o realista/naturalista está preocupado, principalmente, em focalizar o adultério, que é encarado como causa da destruição da família e, conseqüentemente, da sociedade.
O amor, sobretudo para os naturalistas, é visto como um ato fisiológico.

Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos (...) mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranqüila serenidade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior.
(Aluísio Azevedo. O Cortiço)

6. Espaço focalizado

Existe uma preferência nítida pelo espaço urbano, pois a burguesia fixou-se sobretudo nas cidades.

Os bondes passavam. Senhoras vinham à janela, compondo os cabelos numa ânsia de novidade. Latiam cães. Um movimento cheio de rumores, uma balbúrdia... Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas com estrondo.
(Adolfo Caminha. Bom-Crioulo)

7. Tempo histórico focalizado

O escritor realista/naturalista preocupa-se sobretudo com personagens que retratem pessoas de sua época, diferindo assim de alguns procedimentos românticos de volta ao passado ou de projeção para o futuro.
Encarando o seu presente histórico, o autor capta os conflitos do homem da época, os seus problemas concretos, dando preferência aos dramas cotidianos de gente simples.

Falava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da dissolução da Câmara. Rubião assistira à reunião em que o Ministério Itaboraí pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar suas impressões, descrevia a Câmara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifácio, a moção, a votação...
(Machado de Assis. Quincas Borba, publicado pela primeira vez em 1891.)

8. Narrativa

O romancista propõe-se criar enredos em que os conflitos se resolvam com determinadas forcas que estejam em ação. O processo narrativo, obedecendo á lógica, elimina os acasos e milagres, comuns nos romances românticos. Por vezes, o desenlace de uma trama é previsível é raramente ocorrem sobressaltos ou supresas para o leitor.

9. Linguagem

A linguagem utilizada pelos realistas/naturalistas é mais simples que a linguagem dos românticos. O detalhismo é uma das características desta linguagem, pois o narrador pretende conseguir o retrato fiel da realidade focalizada.
Nos escritores que tendem para o naturalismo, ocorrem muitas expressões tomadas às ciências físicas e biológicas. Desses princípios resultam as características fundamentais do texto realista/naturalista:
a) Objetividade por parte do narrador;
b) Nivelamento do homem aos demais seres do universo;
c) Não idealização das personagens;
d) Condicionamento das personagens ao meio físico e social;
e) Concepção de amor como um fato predominantemente fisiológico;
f) Predominância do espaço urbano;
g) Preocupação do escritor em focalizar seu tempo histórico;
h) Linguagem mais simples que a dos românticos;

Torna-se agora necessário estabelecer a diferença entre Realismo e Naturalismo.

Essa diferença nem sempre é fácil de se verificar nas obras. Grosso modo, pode-se afirmar que todo naturalista é realista, mas nem todo realista é naturalista. Assim, o Naturalismo surge como um segmento do Realismo, uma vez que ambos fundamentam-se nos mesmos princípios científicos, filosóficos e artísticos.
O Naturalismo apresenta uma visão de mundo mais mecanicista, mais determinista, pois aceita o princípio segundo o qual somente as leis de ciência são validas. Qualquer tipo de visão espiritualizada do mundo não tem, para o naturalismo, grande valor.
Como decorrência disso, o homem é um animal condicionado por forcas que determinam seu comportamento. Por isso, as personagens dos romances naturalistas têm um comportamento que resulta da liberação dos institutos, sob determinadas condições do meio ambiente. A hereditariedade física e psicológica das personagens conduz sua ação. A vida interior é reduzida a quase nada, uma vez que o escritor tenta utilizar métodos científicos de observação e análise.
Enquanto o drama das personagens realistas tem origem moral ou decorre de algum desequilíbrio social, as personagens naturais têm a origem dos seus dramas em herança de ordem biológica ou psicológica que, num determinado momento, em determinado ambiente, acabam por vir à tona. Por isso, uma personagem naturalista é muito parecida com outra personagem naturalista, uma vez que todas estão submetida à mesmas leis.
Para os naturalistas, a ação no romance é importante, pois o drama vivido pelas personagens se exterioriza através dessa ação. Para o realista, a ação é secundaria, já que ele se preocupa mais em sugerir o mundo interior das personagens.
Quanto à temática, observa-se nos naturalistas uma tendência a retratar temas de patologia sexual ou social. Nota-se ainda que o escritor naturalista não vacila em trazer para a literatura os aspectos mais repulsivos da vida, além de tender a focalizar as camadas mais baixas da sociedade.

III. AUTORES E OBRAS

No Brasil, o Realismo/Naturalismo teve início oficialmente em 1881, com a publicação de O Mulato (Aluísio Azevedo) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). O primeiro representa a tendência naturalista, e o segundo, a tendência realista.
É importante assinalar ainda, neste período (1881 – 1893), o surgimento de algumas obras que dão seqüência ao regionalismo. O romance regionalista de fins dos século XIX vai utilizar os princípios realistas/naturalistas, diferenciando-se, portanto, pela sua objetividade, dos romances do regionalismo romântico.
São obras importantes da tendência regionalista: Luizia-Homem, de domingos Olímpio, e Dona Guidinha do poço, de Manuel Oliveira Paiva.
A poesia do período está reunida sob o nome geral de Parnasianismo, sendo que a produção em prosa permite a seguinte esquematização didática:
• Tendência realista
1. Machado de Assis
2. Raul Pompéia
3. Adolfo Caminha
• Tendência naturalista
1. Aluísio Azevedo
2. Inglês de Sousa

REALISMO

Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquieta do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso.
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Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos.
(Assis, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Ática, 1983.)

As últimas décadas do século XIX assistem ao que se pode chamar de saturação do Romantismo. A instalação da burguesia no poder, a industrialização progressiva da sociedade, os avanços das ciências naturais e o florescimento de novas correntes filosóficas criam um ambiente hostil ao sentimentalismo romântico.
Como uma reação àquela atitude emocional diante da vida, surge uma concepção marcada pelo racionalismo e pela objetividade que será a base do Realismo.
Realistas e realistas – Novamente estamos diante de um nome que sugere alguma confusão na medida em que tem um sentido que ultrapassa os domínios do terreno da história literária.
Ao contrário da palavra romântico, o termo realista vai nos lembrar alguém dotado de espírito prático, voltado para a realidade, bastante distante de uma visão fantasiosa da vida.
A escola literária que ficou conhecida como Realismo, de algum modo, pode ser associada a essa atitude diante do mundo. A produção que a caracteriza adota uma concepção racional das coisas, que deve ser expressa numa linguagem simples, objetiva despida dos volteios do Romantismo.
Literatura e ciência – Assim como Diderot, Voltaire, Montesquieu e Rousseau e seus enciclopedismo influíram na estética neoclássica, sobre o Realismo vão atuar algumas correntes filosóficas e científicas que provocaram profundas mudanças no pensamento e nas atitudes do homem do final do século XIX. Entre elas podemos destacar o determinismo, de Taine (a arte seria o produto da combinação de três fatores: a raça, o meio e o momento), o positivismo, de Augusto Comte (o mundo e o homem só poderiam ser explicados pelas leis naturais através da observação, experiência e comparação) e o evolucionismo, de Darwin (a transformação das espécies se daria a partir da seleção natural do meio).
É interessante notar que diferentemente do que ocorria naqueles dois momentos em que a visão do mundo se marcou pelo desenvolvimento cientifico (o Renascimento e o Neoclassicismo), o tom agora não é de ufanismo nem de auto confiança. Nos textos realistas vamos perceber a presença de um certo pessimismo que traduz a sensação de quem sente a necessidade da mudança mas já pressente o fracasso da tentativa.
Escrever para corrigir – A arte realista parecia guiada por uma grande preocupação: corrigir os desvios da sociedade a partir da análise dos fatos e dos homens. A observação deveria ocupar, assim, o lugar que no Romantismo era ocupado pela imaginação.
A preocupação revolucionaria que já existia na literatura ganha uma nova dimensão. Revestida de uma capa moralizadora, a literatura deveria agir no sentido de denunciar o que havia de mau na sociedade. Os conhecimentos alcançados na área das ciências teriam de ser traduzidos para a leitura que desse modo estaria mais voltada para a análise do que para a invenção.
Para os realistas, a realidade se oferecia como coisa tão rica que bastava reproduzi-la para construir uma grande obra. Não era necessário inventar cenas ou personagens. Através da observação cuidadosa e profunda da realidade concreta seria possível produzir textos verdadeiros que possibilitariam que a literatura desempenhasse o seu papel de cão moral.
O escritor vira fotógrafo – Esse propósito de abordar a realidade da forma mais fiel possível é responsável pela utilização de uma linguagem que pretendia ser, acima de tudo, objetiva. Para maior efeito, ela deveria estar próxima ao modelo jornalístico, ou seja, sua transparência seria tão forte que permitiria que a realidade fosse apreendida tal como ela se apresenta.
Na narrativa realista, o escritor revela intenção de se afastar do texto, como se não fosse ele o intermediário entre o real e o leitor. Era como se ele pudesse renunciar ao status de inventor e assumisse a condição de fotografo. Sua linguagem, portanto, funcionaria como as lentes da maquina fotográfica, limitando-se a registrar o que existe e está aí no mundo.
Para conseguir seu objetivo, a linguagem seria mercada pela linha da clareza, a partir de construção baseadas na ordem direta dos termos das orações, da utilização de imagens quase evidentes, aproximado-se do uso denotativo da linguagem, própria do texto informativo. Embora detalhistas e minuciosas, as descrições evitariam as voltas do Romantismo.
Sem fantasia – A opção por procedimentos próprios das análises científicas, que faziam muito sucesso na época, faz com que os personagens realistas apareçam também como resultado do estudo e da observação dos seres humanos.
De acordo com essa perspectiva, os personagens devem ser retirados da vida diária, sendo, portanto, homens comuns às voltas com os problemas do cotidiano. Diferentemente do que ocorre na prosa romântica, o personagem realista não se caracteriza por nenhum virtude ou defeito especial. Como qualquer pessoa, ele possui qualidades e defeitos e traz em si as contradições próprias do ser humano.
Para o realista, o homem e o mundo dependem das mesmas leis. O universo, a natureza e o homem estão sujeitos, em igualdade de condições, aos mesmos princípios e finalidades. Assim, igualado a uma árvore ou a um peixe, o homem tem a sua natureza determinada por circunstancias exteriores.
Como a sua vontade não pode agir sobre a sua vida de forma independente das coisas que já aconteceram, nenhuma ação do personagem realista é gratuita. Vamos encontrar sempre uma explicação lógica e aceitável do ponto de vista cientifico. Sobre essas considerações influíram os estudos da biologia e da psicologia.
Realismo/Naturalismo – É comum aparecer associado ao Realismo o termo Naturalismo nos manuais de história da literatura. Algumas vezes o termo surge como sinônimo, outras vezes como uma espécie de escola literária muito próxima da realista e podemos ainda encontrá-lo como um nome que deve ser usado no lugar do outro. Tal confusão se justifica graças à dificuldade de se estabelecer as fronteiras entre uma coisa e outra.
Embora a discussão sobre o problema ainda seja muito grande, é possível perceber algumas diferenças entre a prosa realista e a naturalista, apesar do grande numero de pontos comuns. Como há também uma coincidência no tempo já que tais estilos se realizam num mesmo período cronológico, a situação torna-se um pouco mais complicada. Assim, alguns autores preferem ver o Naturalismo como uma espécie de prolongamento mais forte do Realismo.
Sob tal ponto de vista, o Naturalismo não se opõe ao Realismo, mas busca aprofundar as características. Um bom exemplo disso é a forma de encarar o homem: para os realistas o homem devia ser visto biologicamente, ou seja, como um ser sujeito às condições naturais; para os naturalistas o que interessava era mostrar o homem como um ser patológico, isto é, como alguém contaminado por algum mal físico.
Aprofundando a visão cientifica do Realismo, o Naturalismo vai mostrar o homem como um caso a ser clinicamente estudado. O importante e, então, será mostrar os problemas de comportamento do homem como distúrbios determinados pelo meio em que ele vive e pela hereditariedade. Nessa linha, os temas preferidos por essa escola serão a miséria, o adultério, a criminalidade e os problemas ligados ao sexo.


(CHAVES, Rita de Cássia Natal. As Escolas Literárias. São Paulo: Editora Ática, 1988.)

Realismo e Naturalismo

Sobre o estilo
A literatura, como reflexo do contexto histórico-cultural, sofre uma grande modificação na segunda metade do século XIX. Agora, o belo na arte é mutável como a moda, o que provoca sucessivas mudanças. A burguesia está agora em crise ideológica que deve-se ao fato da realidade social ter mudado. Surge o proletariado, que trabalha na indústria, vive aglomerado. Invertem-se os papéis: a burguesia é provocadora de injustiças (contradição ideológica), surge então uma nova ideologia: o socialismo.
O Realismo surgiu na Europa influenciado pelas importantes transformações econômicas, políticas, sociais e científicas da época. Vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material que a burguesia industrial experimentava. Apesar disso, a condição social do proletariado era cada vez pior e começava a organizar-se, motivados pelas idéias do socialismo utópico de Proudhon e Robert Owen e do socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels.Ocorre também uma verdadeira efervescência de idéias, considerada por alguns como uma segunda etapa do Iluminismo. Surgem correntes científicas e filosóficas de destaque, como o Positivismo de Augusto Comte,. para o qual o único conhecimento válido é o que vêm das ciências; o Determinismo, de Hippolyte Taine, que defende que o comportamento humano é determinado pelo meio, a raça e o momento histórico; e a seleção natural de Charles Darwin. Surgem ainda a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia.
Com toda esta revolução intelectual, surge a necessidade de uma literatura que refletisse todo este avanço da razão - ao contrário do que fazia o Romantismo ao valorizar os sentimentos. Aparece então o Realismo, que combate toda forma romântica e idealizada de ver a realidade. Há a crítica à sociedade burguesa e suas instituições (Estado, Igreja, casamento, família) e a preocupação de embasar-se nas novas descobertas científicas.
Ao lado do Realismo, surgem ainda as correntes literárias denominadas Naturalismo e Parnasianismo, de pequena penetração em Portugal. A primeira, que consiste na verdade em uma forma extremada de Realismo, procura "provar" com romances de tese as teorias científicas da época, particularmente o determinismo. O Parnasianismo por sua vez é uma corrente que combate os exageros de sentimento e de imaginação do Romantismo e tenta resgatar certos princípios clássicos de procedimento, como a busca do equilíbrio, da perfeição formal e o emprego da razão e da objetividade.
Os três movimentos tiveram ciclo na França, com a publicação do romance realista Madame Bovary (l857), de Gustave Flaubert; do romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola (l867), e das antologias parnasianas Parnasse contemporain (a partir de 1866).
A literatura realista e naturalista surge na França com Flaubert (1821-1880) e Zola (1840-1902). Flaubert (1821-1880) é o primeiro escritor a pleitear para a prosa a preocupação científica com o intuito de captar a realidade em toda sua crueldade. Para ele a arte é impessoal e a fantasia deve ser exercida através da observação psicológica, enquanto os fatos humanos e a vida comum são documentados, tendo como fim a objetividade. O romancista fotografa minuciosamente os aspectos fisiológicos, patológicos e anatômicos, filtrando pela sensibilidade o real.
Contudo, a escola Realista atinge seu ponto máximo com o Naturalismo, direcionado pelas idéias materialísticas. Zola, por volta de 1870, busca aprofundar o cientificismo, aplicando-lhe novos princípios, negando o envolvimento pessoal do escritor que deve, diante da natureza, colocar a observação e experiência acima de tudo. O afastamento do sobrenatural e do subjetivo cede lugar à observação objetiva e à razão, sempre, aplicadas ao estudo da natureza, orientando toda busca de conhecimento.
Alfredo Bosi assim descreve o movimento: "O Realismo se tingirá de naturalismo no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das "leis naturais" que a ciência da época julgava ter codificado; ou se dirá parnasiano, na poesia, à medida que se esgotar no lavor do verso tecnicamente perfeito".

O Realismo no Brasil
No Brasil, o marco inicial é a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O estilo se desenvolve no momento em que se discutia a Monarquia e a República, a escravidão e sua abolição. Como os autores portugueses, os brasileiros dedicam-se à crítica e ao estudo da sociedade e dos valores burgueses. No Brasil, entretanto, a corrente Naturalista ganha mais espaço e importância, com destaque para Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. A principal influência portuguesa para estes escritores foi Eça de Queiroz.
Vindo da Europa com tendências ao universal, o Realismo acaba aqui modificado por nossas tradições e, sobretudo, pela intensificação das contradições da sociedade, reforçadas pelos movimentos republicano e abolicionista, intensificadores do descompasso do sistema social. O conhecimento sobre o ser humano se amplia com o avanço da Ciência e os estudos passam a ser feitos sob a ótica da Psicologia e da Sociologia. A Teoria da Evolução das Espécies de Darwin oferece novas perspectivas com base científica, concorrendo para o nascimento de um tipo de literatura mais engajada, impetuosa, renovadora e preocupada com a linguagem.
No romance naturalista, o indivíduo é mero produto da hereditariedade e do meio em que vive. Assim, predomina o elemento fisiológico, natural, instintivo. Para dar vida a essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes e fazem descrições precisas, frias e minuciosas. As personagens são vistas como casos a estudar, sem aprofundamento psicológico. Algumas obras de destaque nesta linha são O cortiço, Casa de pensão e O Ateneu.
Os temas, opostos àqueles do Romantismo, não mais engrandecem os valores sociais, mas os combatem ferozmente. A ambientação dos romances se dá, preferencialmente, em locais miseráveis, localizados com precisão; os casamentos felizes são substituídos pelo adultério; os costumes são descritos minuciosamente com reprodução da linguagem coloquial e regional.
Machado de Assis é um caso à parte. Em suas obras, as personagens têm seus retratos compostos através da exposição de seus pensamentos, hábitos e contradições, revelando a imprevisibilidade das ações e construção das personagens - o que não acontecia com os autores naturalistas. Raul Pompéia também tinha algumas características nesta linha, que conciliava com o lado naturalista.

Características do Realismo
Compromisso com a realidade Realismo-Naturalismo é contra o tradicionalismo romântico. Trata-se de uma arte engajada: ela tem compromisso com o seu momento presente e com a observação do mundo objetivo e exato.
Presença do cotidiano escritores realistas-naturalistas consideram possível representar artisticamente os problemas concretos de seu tempo, sem preconceito ou convenção. E renovaram a arte ao focalizarem o cotidiano, desprezado pelas correntes estéticas anteriores. Daí que os personagens de romances realistas-naturalistas estejam muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas do dia-a-dia, com suas vidas medianas, cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas ou científicas. A linguagem é outra preocupação importante: ela deve se aproximar do texto informativo, ser simples, utilizar-se de imagens denotativas, e as construções sintáticas devem obedecer à ordem direta.

Personagens tipificados personagens de romances realistas-naturalistas são retirados da vida diária e são sempre representativos de uma categoria - seja a um empregado, seja um patrão; seja um proprietário, seja um subalterno; seja um senhor, seja um escravo, e daí por diante. Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere: isto é, embora os personagens sejam seres ficcionais, individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade.

Preferência pelo presente realmente os escritores realistas-naturalistas deram preferência ao momento presente: as narrativas estavam ambientadas num tempo contemporâneo ao do escritor. Com isso, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denunciadora do que havia de mau na sociedade. Outro aspecto dessa preferência pelo momento presente é o detalhismo com que é enfocada a realidade, fato explicável pela proximidade.

Preferência pela narração Ao contrário dos românticos, que privilegiaram a descrição, os realistas-naturalistas deram ênfase à narração do fato: o que acontece e por que acontece são as preocupações desses escritores.

Anticlericais, antimonárquicos, antiburgueses Os realistas-naturalistas são marcadamente contra a Igreja, que apontam como defensora de ideologias ultrapassadas, como, por exemplo, a monarquia. Também criticam acirradamente a burguesia, que encarna o status romântico em geral.

REALISMO NO BRASIL

O Brasil passa por mudanças radicais tanto no campo econômico como no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais, se comparadas às da Europa. A campanha abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a monarquia vive sua decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas criou uma nova realidade. O fim da mão-de-obra escrava e a sua substituição pela mão de obra assalariada, então representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura, originou uma nova economia voltada para o mercado externo, mas sem a estrutura colonialista. Em 1850 extinguiu-se o tráfico negreiro. Desse fato decorreram duas importantes conseqüências:
a) Capitais vultosos, que saíam do país para pagar a importação dos escravos foram reinvestidos em atividades urbanas, incrementando o progresso da burguesia mercantil.
b) Com a abolição da escravatura surge a mão-de-obra assalariada do imigrante. Os negros, em geral, foram marginalizados da sociedade, pois não tinham condição de competir com o imigrante que era melhor qualificado profissionalmente.

O novo estilo inicia-se no Brasil com a publicação de O mulato de Aluízio de Azevedo e de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Os autores realistas são antimonárquicos, como se observa em O mulato, O Cortiço e o Ateneu, negam a burguesia a partir da célula-mãe da sociedade: a família; daí a constante presença de triângulos amorosos, formados pelo pai traído, a mãe adúltera e o amante, que é sempre um amigo da casa, são anti-clericais, destacando em suas obras padres e beatas corruptos.
É importante salientar que Realismo é a denominação genérica da escola literária, sendo que nela se podem perceber três tendências distintas; Romance realista, Romance naturalista, Poesia parnasiana.
Romance realista – cultivado no Brasil por Machado de Assis, é uma narrativa mais preocupada com análise psicológica, fazendo crítica à sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. O romance realista analisa a sociedade por cima, ou seja, seus personagens são capitalistas, pertencem à classe dominante. O romance realista é documental, retrato de uma época.
Romance naturalista _ Cultivado no Brasil por Aluízio Azevedo e Júlio Ribeiro. A narrativa é marcada por forte análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo.

Poesia parnasiana __ Preocupada com a forma e a objetividade; “a arte pela arte”, com seus sonetos alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a Trindade Parnasiana..

Principais representantes do Realismo no Brasil
Machado de Assis, Raul Pompéia, Aluísio de Azevedo, Adolfo caminha, Domingos Olímpio, Ingl~es de Sousa, Coelho neto e Afonso Arinos são os nomes de maior expressão do Realismo brasileiro. Machado de Assis é o representante máximo do nosso Realismo.

Principais obras de Machado de Assis:
• Memória Póstumas de Brás Cubas
• Quincas Borba
• Dom Casmurro
• Esaú e Jacó
• Memorial de Aires
• A mão e a luva
• Histórias da meia noite

As obras machadianas apresentam como caracterísiticas:
• Análise psicológica
• Visão pessimista do mundo
• Ironia e humor agudos
• Busca obsessiva de significado existencial.

Principais obras de Raul Pompéia
A obra de Raul Pompéia é um caso à parte na literatura brasileira. Consagrou-se como escritor graças a um único livro, o romance O Ateneu. Trata-se de reflexões sobre a vida de internato. Seus personagens são fracassados, medíocres e vingativos.

Principais obras de Aluízio de Azevedo
Escritor apaixonado e talentoso, artista combativo, pôs a nu os problemas sociais e morais da sociedade brasileira de seu tempo. Escreveu:
• O mulato
• Casa de pensão
• O cortiço etc

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